
‘SYNECDOQUE, NEW YORK’
Real: Charlie Kaufmann
Estreia 4 Junho
Acaba-se de assistir a Synecdoche, New York e fica-se a pensar: “mas para onde raio foi o filme que comecei a ver?” A primeira longa-metragem realizada por Charlie Kaufmann, argumentista com cotação em alta desde Being John Malkovich e Adaptation, é, para o bem e para o mal, um filme com uma ambição desmedida – a sua megalomania é comparável apenas ao projecto do protagonista. E isso nem sempre é saudável numa estreia na realização. O que não quer dizer que não seja louvável: a humanidade da história é coisa rara no actual cinema americano, entre as balas disparadas pelo cinema de estúdio, e as famílias disfuncionais com que o auto-denominado ‘indie americano’ nos maça.
Caden Cotard (Phillip Seymour Hoffman) é um encenador em crise de saúde e familiar: a sua mulher (Catherine Keener), pintora de profissão, parte para Berlim com a filha para nunca mais voltar. Entretanto, Caden ganha uma bolsa de fundos virtualmente infinitos para uma criação sua. Auto-absorvido como sempre, a peça transforma-se numa réplica da sua própria vida: pessoa a pessoa, edifício a edifício, em tamanho real num armazém em Manhattan. E se há duplos de toda a gente que faz parte da sua vida, há, claro, um duplo dele próprio... um encenador, a criar uma New York em tamanho real num armazém..., e por aí fora. Sim, estamos perante (mais) um dispositivo em matrioska: é esta a ‘sinédoque’ a que o título faz alusão. Passam-se 40 anos ao longo do filme, e a peça de Caden está sempre em remodelação, obviamente ao sabor das flutuações da sua vida e do seu envelhecimento. ‘A vida é o verdadeiro drama’ será a máxima latente no filme.
A boa ideia de base é, quanto a mim, esticada a um limite impossível. A exigência de um projecto deste calibre talvez merecesse mãos mais experientes; assim, fica um filme que deslumbra em igual medida que desilude: tem óptimos momentos, sobretudo no primeiro terço (o filme tem mais de 2 horas), tem interpretações portentosas, mas é exageradamente derivativo, parecendo que nunca sabe bem do que quer falar. O filme terá assim uma meia hora a mais, o que é uma pena, dada a ainda assim qualidade geral do projecto, e o comprovado talento do autor. Kaufmann precisaria, talvez, de filmar uma sinédoque deste filme.
Gonçalo Jordão
17/05/2009
2 comentários:
Concordo... mas ainda acho-o pior. O filme mais pretensioso que me passou pelos olhos ultimamente. O Curious Case of Benjamin Button até parece um épico decente ao lado disto.
A mim parece-me um filme inteligente e incomum, talvez elevado em demasia. Demonstra como os autores nas mais diversas áreas constroem personagens. As suas fantasias e os seus fantasmas. Nota para uma muito boa prestação de Phillip Seymour Hoffman.
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