...reabilito hoje um texto (e fotografia correspondente) que havia escrito há uns três anos atrás, e postado num blog onde então participava - por ocasião da morte de um familiar. Foi o primeiro contacto que tive com a morte de alguém 'próximo' na minha vida adulta. Foi o primeiro de uma sucessão inacreditável que aconteceria ao longo dos dois anos seguintes. E hoje, depois de tantas pessoas tão importantes para mim terem desaparecido a um ritmo, digamos, 'diabólico', ainda não aprendi a lidar com a PUTA DA MORTE.
Se o caro leitor fez imediatamente o parágrafo anterior relacionar-se com a triste notícia da data de hoje (o falecimento da mais importante figura paternal da sociedade portuguesa / europeia), está absolutamente certo.
Não alterei uma vírgula. Isto não é uma questão de forma ou estilo - é, quanto muito, uma infantil tentativa de exorcismo. Cá vai:

"Houve um esforço de sentir para o qual ele não estava de forma alguma preparado. Aquela palpitação regular foi-lhe surpreendente.
Durante a viagem, no automóvel, foi sendo assaltado por memórias aleatórias, o que o enfureceu. Não era em nada disso que ele queria pensar, não era assim que ele sentia que devia ser! Imagens dos intermináveis comboios nocturnos que o transportavam para longe, quando vivia no outro lado; lembranças azedas de jogos de futebol adolescentes; a sua mãe depositando na cadeira a roupa que ele haveria de levar para a escola na manhã seguinte… Não!
Tentou afastar tais revisitações concentrando-se em imagens mórbidas com a intenção de se preparar – mas não conseguiu mais do que uma listagem de fotogramas recolhidos directamente da sua cultura audiovisual, organizados por grau de horribilidade. Estremeceu de desolação: a sua imaginação era cadavérica, quando comparada com essa coisa da realidade.
No lugar da igreja o ar estava fresco. Enquanto caminhava, concentrou-se com prazer no som agradavelmente ritmado que os seus pés causavam no tapete de folhas secas que cobria o chão. Sentiu os olhos postos em si quando cruzou o adro – olhos cabisbaixos e perscrutadores, olhos que o faziam sentir-se em falta.
Decidiu então que devia carregar com peso o seu próprio olhar – e pesadamente se arrastou pela nave central em direcção ao transepto onde, no meio de cachos a florir, repousava uma urna aberta. Todas as imagens de santos nos altares laterais, todos os apóstolos nos frescos do tecto, todos os Cristos das etapas litúrgicas – todos eles estavam virados para si. Ouviam-se as mil vozes idosas de terços rezados em cascatas tribais. Este ambiente sugeria-lhe uma exaltação da derrota, um pedido de perdão colectivo pela inferioridade e falibilidade humana – e isso esmagava-o.
Estacou. Susteve a respiração até ouvir o silêncio do coração a bater e deu o passo que faltava até à total proximidade com o corpo. Saltou à vista naturalmente um tufo de cabelos brancos que o véu não velara.
A palpitação desregulou-se."
Gonçalo Jordão
13/11/2006
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