Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

As 'fases Woody Allen': September, Another Woman, Crimes and Misdemeanors



Toda a gente passa por 'fases Woody Allen'. As primeiras, quando se é novo, são aquelas histrionices tipo 'Bananas' ou 'Everything you always wanted to know about sex...', que perdem cedo o interesse.
Depois segue-se a fase 'canónica': e então, admira-se a genialidade de 'Annie Hall', 'Hannah and her sisters', 'Interiors', sobretudo 'Manhattan'. São todos filmes admiráveis. E são todos 'filmes-mais-Woody-Allen-que-o-próprio-Woody-Allen'. Ou seja, é uma fase que passa, e fica bem arquivada na memória, em 'W', de 'Woody Allen'. Não se regressa a ela, excepto quando passam na televisão, ou um jornal impinge o DVD. E avançamos para o resto do cinema.
Como o homem faz um filme por ano, habituámo-nos a dizer que o Woody Allen de hoje é uma merda, comparado ao 'Annie Hall' ou 'Manhattan'. E uma obra ainda assim menor como 'Match Point' passa a grande obra, dado o deserto de ideias do senhor nos idos dos 90's. 
E dos três melhores filmes dele, pouco se fala. Sim, falou-se muito de 'Crimes and Misdemeanors' a propósito de 'Match Point', mas só para dizer que este era 'o melhor Allen desde' aquele. 
E teremos sempre os preguiçosos, que se referem a estes três filmes como a 'trilogia Bergmaniana', coisa vaga e enganadora. Porque se de facto 'September' é assumidamente 'Bergmaniano' no tema (problemas familiares + relações cruzadas + desilusões existenciais) e na mise-en-scène (o filme de câmara, o mesmo décor, apenas 6 personagens durante quase todo o filme), já 'Another Woman' (o mais perfeito dos três filmes) é um filme de muito difícil catalogação. Curiosamente, Sven Niqvist (eterno colaborador de Bergman) é o director de fotografia de 'Another Woman' e 'Crimes and Misdemeanors'. Em 'September', quem faz a fotografia é Carlo di Palma, colaborador, entre outros grandes nomes, de... Antonioni, autor de quem 'Another Woman' mais se aproxima.
A questão com 'Another Woman' é que abre a gaveta ' A desilusão da burguesia intelectual, e a sua não-comunicação', que vemos naquele Antonioni mais Antonioni, mas sem nunca perder um certo carácter singelamente americano, contemporâneo, daquela facção 'a nossa geração tinha tudo para singrar mas afinal é uma merda', como nos filmes, por exemplo, do Hal Ashby.
E depois, Gena Rowlands... Ainda ontem um professor me apelidou de 'filho de Cassavetes', e tomo-o como positivo, e sim, sou-o; mas ponho este papel da musa entre os seus melhores - estou a falar, claro, de 'Love Streams' e 'Opening Night' ('A Woman Under the Influence' é para meninos...).
'Crime and Punishment', perdão, 'Crimes and Misdemeanors' é sem dúvida o melhor entre os muitos e menos conhecidos filmes 'de crime' de Woody Allen. A trama é dupla: uma é intensa, a outra é comic relief, e nunca esse dispositivo foi tão sabiamente usado. Martin Landau ajuda num lado, Alan Alda segura bem o outro; Schubert mantém o filme numa seriedade que não é sisuda. Para usar mais uma terminologia redutora (para não variar), diria que é um filme 'Chabroliano'. Ah, e já disse que Martin Laundau é GRANDE, ENORME?
Voltando finalmente a 'September', é provavelmente aquele que tem os diálogos mais apurados (não admira, foi re-escrito e re-filmado), onde tem lugar uma linha como: "(..) God is testing us and I for one am going to be ready. Where's the vodka?"

Sim, passei por mais uma 'fase Woody Allen'. 

8 comentários:

Álvaro Martins disse...

Sim, Woody Allen fala sobretudo da burguesia e do quotidiano. Sem dúvida que é um "americano europeu" e além da influência Bergman eu acho que Allen é muito ligado à nouvelle vague. O cinema dele respira avant garde por todo o lado, embora um avant garde americano, mais "pop", mais Allen. Posso estar errado, mas é a percepção que tenho do seu cinema.

Abraços

bonifaceo disse...

Dado os poucos filmes que vou vendo, nem sei como me classificar. Não conheço todos esses termos e muito menos vou vendo filmes de outros de que falas, embora obviamente os conheça.
Embora adore Allen, conheço muito pouco e de dramas acho que ainda só vi mesmo match point, imagina! (que vergonha). Adoro o tipo de humor que ele faz, mesmo os filmes mais recentes, comparados com tuda a maioria acho muito bom.
Mas também quando se atinge uma fase considerada muito boa é difícil fazer ainda melhor e depois surgem as comparações e assim os menos bons filmes levam com nomes menos bonitos. :D

gonçalo jordão disse...

Não é bem assim! Depende do que é para ti "muito bom". É Ozu, Rossen, Fuller, ou Erice?...

bonifaceo disse...

Estava a comparar com o circuito mais comercial e os filmes de treta, parvos.
Só nesse sentido, num sentido mais abrangente, dei logo a entender que andava a ver muitos poucos filmes, e que não tinha conhecimento para uma discussão mais aprofundada.

gonçalo jordão disse...

Sim, claro, desculpa.
Um abraço!

bonifaceo disse...

Eheh, na boa!
Eu por um lado é que peço desculpa, porque tenho pena de não ter mais tempo para o cinema. Já com a música às vezes é o que é... Mas assim é sempre bom ir tomando conhecimento por quem sabe mais e para quando se tem tempo seguir os conselhos desses.
Abraço.

gonçalo jordão disse...

Sim, o problema em mensagens escritas é a inexistência de entoações, ou então didascálias. Eu estava só a tentar ser irónico. Não queria de modo nenhum estar numa de dizer que vi muitos filmes, o que até nem é bem assim... vi os que achei que devia ver, é só. Fico mas é bastante lisonjeado se te chamei atenção para um filme que não conhecias!
Aparece sempre!
Um abraço e um bom início de semana!

G.J.

Fred disse...

Eu não enxergo Bergman em Crimes e Pecados. Se há, na filmografia do Woody Allen, uma Trilogia Bergmaniana, a mim faz mais sentido dizer q esta seria formada por Interiores, Setembro e A Outra.